Sobre autoria, repertório e o risco de terceirizar o pensamento
No título desse texto, “por nós” é cacofonia, ou seja, pode soar com duplo sentido ao ser lido em voz alta. Você pode achar que foi erro humano ou delírio de IA. Aliás, você é capaz de apontar o que neste texto é autoral e o que foi escrito por uma máquina?
Algumas analogias possíveis: qual a diferença entre um buraco feito com enxada e outro com retroescavadeira? Qual a diferença entre uma coxinha modelada com as mãos e outra prensada por uma máquina de salgados? Qual a diferença entre uma conta de padaria e uma equação com todas as variáveis?
Você pode ter respondido objetivamente cada pergunta ou pode ter divagado em pensamentos sobre o tempo. Isso porque a resposta para todas essas perguntas envolve essa variável.
As máquinas hackeiam o tempo.
Na enxada, o mesmo buraco é feito por uma pessoa, em 5 dias de 8h de trabalho, totalizando 40h de trabalho manual; na escavadeira, quem sabe, 40 minutos. Enquanto um ser humano modela uma coxinha, a máquina já entregou, quem sabe, 40 unidades. Num cálculo simples, vai dar tudo certo; mas na equação completa, aparecem outras variáveis e as finanças colapsam.
O tempo vai passando enquanto as palavras vão sendo digitadas aqui. Por enquanto, quatro ou cinco parágrafos. No mesmo tempo, teria textos para a semana inteira usando uma máquina. Sobraria tempo.
Parar para escrever é parar para pensar. Repito isso há anos.
Chegamos ao ponto. A diferença entre um texto feito à mão e outro produzido por inteligência artificial é o tempo.
Não é mais preciso parar para escrever.
Talvez, não seja mais preciso parar para pensar.
Como disse no início, o título deste texto, “por nós” é uma cacofonia. Soa mal. Pode parecer um erro humano ou o delírio de uma IA com preguiça de revisar o próprio código. Aliás, você é capaz de apontar o que aqui é carne e osso e o que é silício e probabilidade?
Vamos às analogias: Qual a diferença entre um buraco cavado com enxada e outro com retroescavadeira? Entre uma coxinha feita à mão e uma de linha de produção industrial? Entre a conta de padaria que você faz de cabeça e uma equação de variáveis complexas que prevê o colapso financeiro?
Você pode ter respondido objetivamente a essas perguntas ou ter divagado sobre o valor do tempo. A resposta, para ambos os casos, é a mesma: o tempo.
As máquinas hackearam o tempo.
Enquanto você ajusta o cabo da enxada para começar o trabalho manual — acumulando horas de suor —, a escavadeira já terminou a tarefa e o operador está tomando café. Enquanto o artesão modela uma única coxinha, a máquina despejou quarenta unidades na esteira.
Em um cálculo simplista, o resultado é o mesmo. Mas, na “equação completa”, algo se perde. Quando removemos o atrito do tempo, as variáveis começam a colapsar.
Enquanto você lê este parágrafo, as palavras aparecem no seu visor. Se eu tivesse usado uma IA, já teria entregue este post, o da semana que vem e o do mês inteiro. Eu teria economizado tempo. Eu estaria livre.
Mas, há anos, eu repito: parar para escrever é parar para pensar.
O abismo entre um texto feito à mão e um texto gerado por IA não é a qualidade, a gramática ou a criatividade. É a marca do tempo gasto. A máquina não “gasta” tempo; ela apenas processa dados.
Ao automatizar a escrita, não estamos apenas ganhando produtividade. Estamos eliminando o próprio ato de pensar durante o processo.
E, convenhamos: não é mais preciso parar para escrever. Mas, ao não parar, será que ainda estamos realmente dizendo algo?
Sobre o autor
Luiz Henrique Cunha é professor, pesquisador e comunicador em educação. Mestre em Educação e Tecnologias Digitais pela Universidade de Lisboa, estuda as relações entre linguagem, dados, tecnologia e desenvolvimento humano. É fundador da Escolateca, um ecossistema de formação e inovação educacional criado para investigar e construir novas possibilidades para professores e escolas em um mundo atravessado pela inteligência artificial.